quarta-feira, 28 de maio de 2014

Resenha: V de vingança, Alan Moore & David Lloyd, Panini Books (Vertigo)

Paixão. Essa palavra define o que eu sinto por essa HQ clássica, que às vezes me deixa sem adjetivos para qualificá-la. Parece que nenhuma palavra pode descrever o quanto acho essa criação do Alan Moore genial, relevante e imortal. Você certamente já viu a icônica máscara do V por aí, seja nas manifestações ao redor do Brasil desde o ano passado ou como símbolo da famosa organização Anonymous. V é um personagem tão fantástico que conseguiu emergir das páginas dos quadrinhos e se tornar, mais do que um símbolo, uma ideia. Uma ideia para inúmeras pessoas. Uma ideia de liberdade, de anarquismo, de revolução política, de consciência, de maturidade intelectual. V se tornou na vida real o que o destino que Alan Moore lhe reservou nos quadrinhos. Eis um caso em que a vida imita a arte.

Sinopse: Londres. Cinco de novembro de 1997. 

Numa Inglaterra dominada por um regime totalitário, uma figura misteriosa chamada simplesmente V, usando vestimentas e uma máscara que evocam a imagem de um infame personagem histórico britânico, desponta no horizonte como a única chance de que haja liberdade novamente. Chegou a hora de alguém levantar a voz e dar um basta à situação vigente... 

Um verdadeiro marco na história da narrativa gráfica, V de Vingança é um hino à resistência e à necessidade de liberdade. Sua importância é tão grande que até hoje é apontada como uma das melhores publicações do gênero, tendo, inclusive, influenciado os irmãos Wachowski (criadores da trilogia Matrix) a produzir um excelente filme baseado na obra.


Nesta semana fiz um post sobre as melhores distopias clássicas já publicadas, e é claro que "V de vingança" não poderia faltar nessa lista de 8 grandes obras. O título original desta HQ é V for Vendetta. A palavra de origem italiana "vendetta", segundo o dicionário online Dicio, significa:


V é um homem que se preparou por muitos e muitos anos para a sua grande vingança contra os líderes do governo totalitário de uma Londres decadente e cheia de cidadãos amedrontados, manipulados e devastados pela guerra, pelas epidemias e pela violência. A corrupção impera e ninguém mais vive - apenas sobrevive. V foi uma vítima terrível de um campo de concentração onde se realizava experiências científicas com cobaias humanas. Mas a despeito de tudo, ele não só sobreviveu à essa atrocidade, mas se fortaleceu com ela. Alan Moore e David Lloyd utilizaram Guy Fawkes como inspiração para criar V, trasvesti-lo e V encarnou todos os seus ideais. Guy Fawkes foi um personagem histórico muito importante na história da Inglaterra.

Guy Fawkes (Iorque, 13 de abril de 1570  Londres, 31 de janeiro de 1606), também conhecido como Guido Fawkes, foi um soldado inglês católico que teve participação na "Conspiração da pólvora" (Gunpowder Plot) na qual se pretendia assassinar o rei protestante Jaime I da Inglaterra e todos os membros do Parlamento inglês durante uma sessão em 1605, para assim dar início a um levante católico. Guy Fawkes era o responsável por guardar os barris de pólvora que seriam utilizados para explodir o Parlamento durante a sessão. Porém a conspiração foi desarmada e após ser interrogado sob tortura, Fawkes foi condenado à morte na forca por traição e tentativa de assassinato. Outros participantes da conspiração acabaram tendo o mesmo destino. Sua captura é celebrada até os dias atuais no dia 5 de novembro, na "Noite das Fogueiras" (Bonfire Night).
Fonte: Wikipedia

Guy Fawkes, cujos traços serviram de modelo para a criação da máscara de V

V é um homem extremamente culto, inteligente, que está sempre a um passo dos outros e que quis, mais do que uma vingança pessoal, uma vingança do povo e para o povo. Ele não quis que os malfeitores pagassem pelo que haviam feito a ele, mas também a todos. Cada pessoa dessa Inglaterra futurística e decadente. 

O traço de David Lloyd é muito marcante e o argumento de Alan Moore muito detalhista e culto. Referências a Shakespeare estão por toda a obra. Eis algumas das frases brilhantes com as quais V nos brinda ao longo da graphic novel:
"A anarquia ostenta duas faces. A de Destruidores e a de Criadores. Os Destruidores derrubam impérios, e com os destroços, os Criadores erguem Mundos Melhores." 
"Por baixo dessa carne existe um ideal. e as ideias nunca morrem." 
"Os artistas usam a mentira para revelar a verdade, enquanto os políticos usam a mentira para esconde-la."
"Um homem pode morrer, lutar, falhar, até mesmo ser esquecido, mas sua ideia pode modificar o mundo mesmo tendo passado 400 anos." 

Essa HQ é para aqueles que se importam com o rumo que a sociedade moderna está tomando, com os acontecimentos estarrecedores que inundam nossos ouvidos e olhos diariamente. Como disse David Lloyd na introdução que escreveu para a HQ em 14 de janeiro de 1990, "em V de Vingança não há muitos personagens alegres e descontraídos; e é pra gente que não desliga na hora do noticiário". E como V repete várias e várias vezes, "remember, remember the 5th of November". Relembremos, então.

"Lembrai, lembrai, o cinco de novembro
A pólvora, a traição e a conspiração;
Não conheço nenhuma razão para que a traição de pólvora;
Deva ser esquecida algum dia."
(Rima tradicional inglesa em alusão à Conspiração da Pólvora)


Nota: