segunda-feira, 26 de maio de 2014

Distopia: o gênero literário que está na moda

O que "1984", "Laranja Mecânica", "Ensaio sobre a cegueira", "V de Vingança" (HQ), "Androides sonham com ovelhas elétricas" (livro que inspirou o clássico filme Blade Runner: o caçador de androides, dirigido pelo aclamado Ridley Scott e protagonizado por Harrison Ford), "Fahrenheit 451", "Admirável mundo novo", "Jogos Vorazes" e "Divergente" têm em comum? Todas são obras que fizeram/fazem muito sucesso e são consideradas distópicas.

Transcrevo abaixo um trecho muito interessante retirado da Wikipedia sobre o que é distopia:

Distopia ou antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utopia ou promove a vivência em uma "utopia negativa" . As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade. Nelas, "caem as cortinas", e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. A tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, seja de instituições ou mesmo de corporações.
Distopias são frequentemente criadas como avisos ou como sátiras, mostrando as atuais convenções sociais e limites extrapolados ao máximo. Nesse aspecto, diferem fundamentalmente do conceito de utopia, pois as utopias são sistemas sociais idealizados e não têm raízes na nossa sociedade atual, figurando em outra época ou tempo ou após uma grande descontinuidade histórica. 

É fácil perceber, com as definições acima, o porquê do gênero literário distopia ser tão atraente para pessoas de todas as idades, incluindo nossa atual geração de adolescentes. Estórias que 'pintam' um futuro, mesmo que terrível, porém plausível, despertam nossa curiosidade. Fazer previsões e planos para o futuro distante é uma das características que nos diferenciam dos outros animais. E imaginar um mundo diferente do que conhecemos, cujas bases são divergentes do nosso atual status quo, é um exercício intelectual fascinante e nada fácil. E é por isso que admiro, e muito, escritores que conseguem produzir obras fantásticas que se tornaram (e se tornarão) clássicos do gênero distópico.

 O trecho abaixo resume bem o que permeia o conteúdo de um livro distópico.  

   A literatura distópica costuma apresentar pelo menos alguns dos seguintes traços: 1.     Tem conteúdo moral, projetando o modo como os nossos dilemas morais presentes figurariam no futuro. 2.   Oferecem crítica social e apresentam as simpatias políticas do autor. 3.   Exploram a estupidez coletiva. 4. O poder é mantido por uma elite, mediante a somatização e consequente alívio de certas carências e privações do indivíduo. 5.   Discurso pessimista, raramente "flertando" com a esperança. 6.   Violência banalizada e generalizada.

Sempre gostei de distopias, antes mesmo de conhecer essa palavra. Li alguns dos melhores livros já escritos dentro do gênero, e fiquei muito feliz com a popularização recente de histórias desse tipo entre os jovens do mundo todo. Best-sellers atuais como "Jogos Vorazes" e "Divergente" são os queridinhos da garotada que gosta de ler, e provavelmente despertaram em muitos outros o gosto pela leitura. Isso é muito bom, sobretudo porque desperta nos leitores o que costumo chamar de consciência política, e faz com que questionem a sociedade ao seu redor e o futuro em cuja construção eles deverão ser participantes ativos. Mas acho muito importante que os fãs das distopias modernas tenham contato, também, com os clássicos que, inclusive, serviram de inspiração para Suzanne Collins, Veronica Roth e muitos outros escritores atuais.

Listo, abaixo, algumas das melhores distopias já escritas pelo mundo afora, em várias épocas, lugares, e de vários estilos diferentes:

1984 - George Orwell
Clássico dos clássicos, a obra-prima do escritor britânico George Orwell foi escrita após a ascensão e declínio do totalitarismo na Europa e o fim da 2ª Guerra Mundial. Hoje soa quase como uma profecia sobre a era em que os trabalhadores e indivíduos em geral seriam monitorados 24 horas por dia e serviriam, incondicionalmente, ao Estado Todo-Poderoso e à figura de poder absoluto: o Big Brother. Pretendo relê-lo e resenhá-lo em breve. Existe um filme do ano de 1984 dirigido por Michael Radford baseado na obra.



Ensaio sobre a cegueira - José Saramago
Primeira distopia que li na vida, de autoria do Prêmio Nobel José Saramago. Começa com uma cena corriqueira - um homem parado no trânsito - e trata de um futuro assustador, onde uma inexplicável epidemia de cegueira destrói as bases fundamentais da civilização e joga por terra os conceitos sobre o que é humanidade. Outro que está na minha lista de releituras/resenhas. Existe um filme baseado na obra, com a atriz Julianne Moore e dirigido pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles.


Laranja Mecânica - Anthony Burgess
Livro que originou um dos clássicos do cinema, dirigido por Stanley Kubrick. Trata de uma Inglaterra futurista e da vida de Alex DeLarge, um adolescente sociopata que adora música clássica, estupro e ultra violência. O livro narra ele e sua gangue em ação (em uma das cenas de violência mais impactantes que me recordo) e a tentativa do governo de reabilitá-lo através de condicionamento psicológico. A grande questão da obra é sobre a moralidade e sobre o livre-arbítrio. 




V de vingança - Alan Moore
Acho que já é a décima vez que falo de V de Vingança neste blog. Mas é por uma boa razão. Uma das melhores distopias que conheço, V de Vingança fala de uma Londres futurística onde um governo totalitário restringe a liberdade das pessoas e as manipula e, em meio a isso, surge V, um homem desconhecido cujo passado serviu para transformá-lo em mais do que um herói, mais do que um símbolo: uma ideia. Uma ideia que vai mudar para sempre o status quo. A obra inspirou o filme homônimo estrelado por Hugo Weaving (o agente Smith de Matrix) e Natalie Portman.


Clássico incontestável da ficção científica, esse livro inspirou Blade Runner, aclamado filme de Ridley Scott. A história se passa em uma San Francisco decadente, pós-apocalíptica, em uma época em que o planeta foi quase que totalmente devastado pela Guerra Atômica e a população sobrevivente emigrou para as colônias interplanetárias. Nesse cenário decadente Rick Deckard, caçador de recompensas, tenta melhorar sua vida, O livro aborda questões filosóficas profundas sobre a natureza da vida, a religião, a condição humana e, é claro, a tecnologia e nossa relação com ela. Está na minha lista de próximas leituras.


Fahrenheit 451 - Ray Bradbury
Outra distopia clássica que também inspirou um filme de mesmo nome dirigido por François Truffaut. A história se passa em um futuro dominado por um governo totalitário onde qualquer forma de leitura é proibida. Por isso o nome da obra: é a temperatura na qual o papel entra em combustão. E a função dos bombeiros nesse futuro não é de apagar incêndios, mas de queimar livros. O bombeiro Guy Montag conhece uma menina de 16 anos que mostra a ele o quanto a vida pode ser diferente e que podemos ir contra o status quo. E isso muda sua vida para sempre. O li há muitos anos quando fiquei sabendo de sua existência em outro livro, cujo personagem o citava. Foi uma experiência incrível que me marcou para sempre, e pretendo relê-lo sempre que puder.


Admirável mundo novo - Aldous Huxley
Fabuloso. Distopia que influenciou muitas outras distopias, livros e filmes de ficção científica e que possui ideias que estavam muito a frente de seu tempo quando foi escrita. Aldous Huxley era um gênio. Há pouco tempo fiz uma resenha sobre a obra que você pode ler AQUI.






Não verás país nenhum - Ignácio de Loyola Brandão
Para quem acha que não existe uma boa distopia brasileira, eis o fantástico e quase profético livro de Ignácio de Loyola Brandão. A obra descreve como será a cidade de São Paulo no futuro e conta a vida de Souza, um paulista que vive no meio do caos da cidade, destruída pelos avanços tecnológicos, onde não há água, verde, vida saudável e muito menos liberdade. É muito interessante ver como Loyola Brandão descreve os efeitos do aquecimento global e a existência de um governo totalitário no nosso país. Um livro muito bem escrito, perturbador, alarmante e brilhante em cada uma de suas páginas.


Para aqueles que são fãs das séries distópicas atuais, tais como Divergente, Jogos Vorazes, A seleção, Destino, Delírio, dentre outras, eu recomendo fortemente que leem os livros listados acima. Eles não são aclamados à toa. E vocês verão o quanto esses livros atuais beberam - e bebem - da fonte dos grandes clássicos.