domingo, 5 de outubro de 2014

Resenha: Barba ensopada de sangue, Daniel Galera, Companhia das Letras


Após uma breve análise dos meus hábitos de leitura, decidi ler mais obras brasileiras. Afinal de contas tem muito livro bom que já foi ou está sendo lançado no Brasil afora. Após ler “Múltipla Escolha”, da Lya Luft, optei por um romance contemporâneo e escolhi “Barba ensopada de sangue”, elogiadíssima obra do jovem escritor Daniel Galera, sobre a qual eu já tinha ouvido falar há algum tempo. Fico feliz em dizer que foi uma escolha muito acertada.

Sinopse:Um professor de educação física busca refúgio em Garopaba, um pequeno balneário de Santa Catarina, após a morte do pai. O protagonista (cujo nome não se conhece) se afasta da relação conturbada com os outros membros da família e mergulha em um isolamento geográfico e psicológico. Ao mesmo tempo, ele empreende a busca pela verdade no caso da morte do avô, Gaudério, que teria sido assassinado décadas antes na mesma Garopaba, na época apenas uma vila de pescadores. Sempre acompanhado por Beta, cadela do falecido pai, o professor mergulha na investigação sobre o misterioso Gaudério, esquadrinhando as lacunas do pouco que lhe é revelado, a contragosto, pelos moradores mais antigos da cidade. Portador de uma condição neurológica congênita que o obriga a interagir com as outras pessoas de um modo peculiar, o professor estabelece relações com alguns moradores - uma garçonete e seu filho pequeno, os alunos da natação, um budista histriônico, a secretária de uma agência turística de passeios. Aos poucos, ele vai reunindo as peças que talvez lhe permitirão entender melhor a própria história. É também com lacunas e peças aparentemente díspares que Galera constrói sua narrativa alternando descrições sutis e detalhamento com diálogos ágeis e de rara verossimilhança, que dão vida a um elenco de personagens. 'Barba Ensopada de Sangue' se propõe a resgatar e levar às últimas consequências temas e conflitos das obras anteriores do autor tais como - a construção da identidade e, nesse processo, as dificuldades que se enfrenta para entender e reconhecer os outros; a necessidade inconfessa de uma reparação talvez inviável; a busca pela unidade entre mente e corpo; o consolo afetivo que o contato com a natureza e os animais é capaz de proporcionar; os diversos tipos de violência que podem irromper em meio a uma existência domesticada.
Fonte: http://www.skoob.com.br/livro/273201

Confesso que minha expectativa, criada pelo título, era encontrar uma história de “bang bang” moderna passada nos campos sulistas do Brasil. Não foi isso o que encontrei – o que não quer dizer que tenha sido ruim, pelo contrário. A partir do momento em que parei de criar expectativas na minha cabeça, passei a curtir melhor o livro.

Essa história é sobre a busca de um homem por respostas do seu passado familiar que, de alguma forma, diminuam a sua dor pela perda trágica do pai. Uma dor latente, da qual ele não prefere falar. Aliás, o protagonista está imerso em dores latentes: da perda do pai, da traição do irmão e da mulher que amava, da preferência da mãe pelo irmão, da solidão da qual ele não consegue fugir – pois é da sua natureza ser só. É uma história sobre mitos também e sobre o folclore que existe nas pequenas cidades do Brasil em torno de histórias e personagens.

É um romance muito gostoso de ler, temperado com drama, trechos que te levam à reflexão (aliás, pelo menos para mim, todo o livro me fez refletir, especialmente sobre relacionamentos amorosos), romance e suspense. Mas não é só isso. A escrita e a trama de Galera possuem uma singeleza e ao mesmo tempo uma força que são difíceis de explicar. É uma escrita que marca, modifica o pensamento – ou pelo menos mexe com ele – e que te embarca na história sem esforço.  A honradez e a luta do protagonista te levam a, naturalmente, sentir uma forte empatia por ele.

Recomendo “Barba ensopada de sangue” para qualquer pessoa e penso que, assim como foi comigo, essa leitura pode ser uma ótima porta de entrada para a literatura contemporânea brasileira para aqueles que se acostumaram a ler apenas o que vem de fora.

Nota: