Resenha: V de vingança, Alan Moore & David Lloyd, Panini Books (Vertigo)

Paixão. Essa palavra define o que eu sinto por essa HQ clássica, que às vezes me deixa sem adjetivos para qualificá-la. Parece que nenhuma palavra pode descrever o quanto acho essa criação do Alan Moore genial, relevante e imortal. Você certamente já viu a icônica máscara do V por aí, seja nas manifestações ao redor do Brasil desde o ano passado ou como símbolo da famosa organização Anonymous. V é um personagem tão fantástico que conseguiu emergir das páginas dos quadrinhos e se tornar, mais do que um símbolo, uma ideia. Uma ideia para inúmeras pessoas. Uma ideia de liberdade, de anarquismo, de revolução política, de consciência, de maturidade intelectual. V se tornou na vida real o que o destino que Alan Moore lhe reservou nos quadrinhos. Eis um caso em que a vida imita a arte.

Sinopse: Londres. Cinco de novembro de 1997. 

Numa Inglaterra dominada por um regime totalitário, uma figura misteriosa chamada simplesmente V, usando vestimentas e uma máscara que evocam a imagem de um infame personagem histórico britânico, desponta no horizonte como a única chance de que haja liberdade novamente. Chegou a hora de alguém levantar a voz e dar um basta à situação vigente... 

Um verdadeiro marco na história da narrativa gráfica, V de Vingança é um hino à resistência e à necessidade de liberdade. Sua importância é tão grande que até hoje é apontada como uma das melhores publicações do gênero, tendo, inclusive, influenciado os irmãos Wachowski (criadores da trilogia Matrix) a produzir um excelente filme baseado na obra.


Nesta semana fiz um post sobre as melhores distopias clássicas já publicadas, e é claro que "V de vingança" não poderia faltar nessa lista de 8 grandes obras. O título original desta HQ é V for Vendetta. A palavra de origem italiana "vendetta", segundo o dicionário online Dicio, significa:


V é um homem que se preparou por muitos e muitos anos para a sua grande vingança contra os líderes do governo totalitário de uma Londres decadente e cheia de cidadãos amedrontados, manipulados e devastados pela guerra, pelas epidemias e pela violência. A corrupção impera e ninguém mais vive - apenas sobrevive. V foi uma vítima terrível de um campo de concentração onde se realizava experiências científicas com cobaias humanas. Mas a despeito de tudo, ele não só sobreviveu à essa atrocidade, mas se fortaleceu com ela. Alan Moore e David Lloyd utilizaram Guy Fawkes como inspiração para criar V, trasvesti-lo e V encarnou todos os seus ideais. Guy Fawkes foi um personagem histórico muito importante na história da Inglaterra.

Guy Fawkes (Iorque, 13 de abril de 1570 — Londres, 31 de janeiro de 1606), também conhecido como Guido Fawkes, foi um soldado inglês católico que teve participação na "Conspiração da pólvora" (Gunpowder Plot) na qual se pretendia assassinar o rei protestante Jaime I da Inglaterra e todos os membros do Parlamento inglês durante uma sessão em 1605, para assim dar início a um levante católico. Guy Fawkes era o responsável por guardar os barris de pólvora que seriam utilizados para explodir o Parlamento durante a sessão. Porém a conspiração foi desarmada e após ser interrogado sob tortura, Fawkes foi condenado à morte na forca por traição e tentativa de assassinato. Outros participantes da conspiração acabaram tendo o mesmo destino. Sua captura é celebrada até os dias atuais no dia 5 de novembro, na "Noite das Fogueiras" (Bonfire Night).
Fonte: Wikipedia

Guy Fawkes, cujos traços serviram de modelo para a criação da máscara de V

V é um homem extremamente culto, inteligente, que está sempre a um passo dos outros e que quis, mais do que uma vingança pessoal, uma vingança do povo e para o povo. Ele não quis que os malfeitores pagassem pelo que haviam feito a ele, mas também a todos. Cada pessoa dessa Inglaterra futurística e decadente. 

O traço de David Lloyd é muito marcante e o argumento de Alan Moore muito detalhista e culto. Referências a Shakespeare estão por toda a obra. Eis algumas das frases brilhantes com as quais V nos brinda ao longo da graphic novel:
"A anarquia ostenta duas faces. A de Destruidores e a de Criadores. Os Destruidores derrubam impérios, e com os destroços, os Criadores erguem Mundos Melhores." 
"Por baixo dessa carne existe um ideal. e as ideias nunca morrem." 
"Os artistas usam a mentira para revelar a verdade, enquanto os políticos usam a mentira para esconde-la."
"Um homem pode morrer, lutar, falhar, até mesmo ser esquecido, mas sua ideia pode modificar o mundo mesmo tendo passado 400 anos." 

Essa HQ é para aqueles que se importam com o rumo que a sociedade moderna está tomando, com os acontecimentos estarrecedores que inundam nossos ouvidos e olhos diariamente. Como disse David Lloyd na introdução que escreveu para a HQ em 14 de janeiro de 1990, "em V de Vingança não há muitos personagens alegres e descontraídos; e é pra gente que não desliga na hora do noticiário". E como V repete várias e várias vezes, "remember, remember the 5th of November". Relembremos, então.

"Lembrai, lembrai, o cinco de novembro
A pólvora, a traição e a conspiração;
Não conheço nenhuma razão para que a traição de pólvora;
Deva ser esquecida algum dia."
(Rima tradicional inglesa em alusão à Conspiração da Pólvora)


Nota:




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