quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Resenha: Sandman – Edição Definitiva Vol. 1, Neil Gaiman, Panini Comics (Vertigo)

País de Origem: EUA
Ano de Publicação: 1989 a 1990
Ano da edição brasileira atual: 2010
Tradução: Jotapê Martins
Nº de páginas: 618
Coleção: Sandman – Edição Definitiva
Arcos Incluídos: Prelúdios e Noturnos - #1 a #8; A casa de bonecas - #9 a #16; Sandman – Terra dos sonhos - #17 a #20.
Histórias Incluídas: #1 - O sono dos justos, #2 - Anfitriões imperfeitos; #3 - Sonhe um breve sonho comigo; #4 - Uma esperança no inferno; #5 - Passageiros; #6 - 24 horas; #7 - Som e fúria; #8 - O som de suas asas; #9 - Contos na areia; #10 - Casa de bonecas; #11 - Mudança; #12 - Brincando de casinha; #13 - Homens de boa fortuna; #14 - Os colecionadores; #15 - Noite adentro; #16 - Corações perdidos; #17 - Calíope; #18 - Um sonho de mil gatos; #19 - Sonho de uma noite de verão; #20 - Fachada.

Sinopse: “Vou revelar-te o que é o medo
num punhado de pó.”
Foi essa frase de T.S. Eliot que serviu para embalar o lançamento dessa série e também dar asas a imaginação de Neil Gaiman, um britânico destinado a criar uma das séries mais revolucionárias e inovadoras dos quadrinhos contemporâneos.
Poucas HQs na história do mundo ocidental transcenderam o gênero e romperam barreiras como Sandman conseguiu. Mesclando mitologias modernas e fantasia sombria, além de acrescentar elementos modernos, históricos e míticos, Sandman foi considerada uma das séries mais artisticamente ambiciosas dos quadrinhos. Quando foi concluída, em 1996, já tinha mudado a nona arte para sempre e se tornado um fenômeno de cultura pop, bem como um marco das HQs, tornando difusa a fronteira imaginária entre os quadrinhos de massa e o que consideramos como arte.
A série conta a história de Morfeus, um dos Perpétuos — criaturas análogas aos deuses, mas ainda maiores — responsável pelo Mundo dos Sonhos. Basicamente ele controla e tem acesso a todos os sonhos da humanidade e de todas as criaturas capazes de sonhar, sendo o senhor do Mundo dos Sonhos, a terra aonde vamos em nossas horas de sono.
Quando uma ordem mística tentou capturar a irmã de Sonho, a Morte, em seu lugar eles capturaram Morfeus. Assustados com o que conseguiram, os membros da ordem o mantiveram cativo. E assim teve início um período de diversas décadas em que esse Perpétuo ficou trancafiado à mercê de seus captores, deixando o Mundo dos Sonhos abandonado e os sonhadores desamparados. A série nos revela como ele se libertou e como foi capaz de se adaptar no mundo após tantos anos de ausência, e também nos mostra um vislumbre de sua história e da mitologia dos Perpétuos.


MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA


No final dos anos 80, após o estrondoso sucesso de Alan Moore com o Monstro do Pântano, a DC Comics foi atrás de outros roteiristas britânicos para integrar seus quadros e dar vida novamente a personagens da editora que estavam no limbo – como Moore fez. Esse movimento foi chamado de ‘Invasão Britânica’. Além de Moore, Grant Morrison, com Homem-Animal, Jamie Delano, com Hellblazer e Neil Gaiman, com Sandman, formaram os pilares para a criação do selo de quadrinhos adultos Vertigo. Neil Gaiman era um jovem escritor cheio de novas ideias e recebeu carta branca dos editores para ressuscitar o personagem Sandman (Wesley Dodds), um vigilante mascarado sem superpoderes da Sociedade da Justiça (ele usava um sobretudo, chapéu, uma máscara de gás e uma arma que dispara gás do sono para sedar os criminosos), e dar a ele nova roupagem.


Wesley Dodds, o Sandman original da DC Comics

Gaiman escolheu a fantasia e a mitologia americana como panos de fundo de suas histórias. A série completa ganhou 26 prêmios Eisner (incluindo os spin-offs), sendo três de melhor série em andamento e quatro de melhor escritor. Somam-se ainda os prêmios Bram Stoker de melhor narrativa ilustrada e o do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême. Tornou-se um fenômeno e, em todas as listas respeitáveis que apresentam os melhores quadrinhos de todos os tempos, figura no mínimo entre as dez primeiras posições, ocupando, frequentemente, a primeira ou segunda posição.

O Sandman do folclore, no qual Gaiman se inspirou, é o guardião dos sonhos, responsável por trazer os sonhos para as crianças durante a noite enquanto elas dormem, através da aspersão de uma espécie de areia mágica em seus olhos. Dizem que aquela “areinha” que encontramos em nossos olhos de manhã ao acordar é resultado de sua obra. O roteirista, no entanto, fez algumas adaptações na lenda para utilizá-la em sua grandiosa obra.

Sandman (Morfeus): misteriosa entidade dos sonhos. Ele possuía uma revista de história em quadrinhos adulta, sucesso de crítica e público. Foi criada por Neil Gaiman em 1988 para o selo Vertigo da Editora DC Comics. Suas histórias descrevem a vida de Sonho, o governante do Sonhar (o mundo dos sonhos) e sua interação com os homens e outras criaturas (que também é conhecido como Morpheus, Sandman, Oneiros, Oniromante e Lorde Moldador, entre outros nomes). Ele é um Pérpetuo - os Perpétuos são manifestações antropomórficas de aspectos comuns a todos os seres vivos: Destino, Desencarnação (ou Morte), Devaneio (ou Sonho), Destruição, Desejo, Desespero e Delírio. É um herói nobre, trágico, no estilo tradicional dos heróis da tragédia grega. Às vezes parece insensível, outras meditativo, mas invariavelmente melancólico. Já seu lado mais racional está sempre ciente de suas responsabilidades, tanto para com as pessoas comuns, quanto para aqueles de suas terras. Compartilha de uma ligação recíproca de dependência e de confiança com sua irmã mais velha, a Morte. Ele se esforça vigorosamente em compreender sua natureza e a dos outros Perpétuos. Fonte

Versão de Brian Bolland para o Sandman de Neil Gaiman


Neste primeiro volume, que inclui as edições #1 a #20, o leitor descobre que o Rei do Sonhar foi preso por bruxos que o invocaram sem querer quando tentavam invocar sua irmã Morte. E quando Morpheus sai para tentar recuperar seus objetos mágicos que foram roubados e seu reino, começa a se desenvolver o grande plot da história. No entanto, é válido observar que, em todo o volume – e ao longo de toda a série -, existem histórias dentro de histórias, em um multiverso de lendas, personagens (incluindo Shakeaspere), fantasias e simbologia que formam quadros ora muito poéticos, ora aterrorizantes (como no arco ‘A casa de bonecas’, o melhor do volume), ora aventurescos, e etc. Gaiman molda a realidade e as histórias como um oleiro muito habilidoso. Posso afirmar que ler Sandman é uma experiência sem comparação.


DESENHOS


Os desenhos foram feitos por vários artistas, sendo eles: Sam Kieth (arte edições # 1 a # 5); Mike Dringenberg (arte # 6 a # 11 e # 14 a # 16), Chris Bachalo (# 12), Michael Zulli (# 13), Kelley Jones (# 17 e # 18), Charles Vess (# 19) e Colleen Doran (# 20). As capas de todas as edições da série foram feitas pelo renomado artista Dave McKean (‘Asilo Arkham’). Sujos, poéticos e amedrontadores nos momentos em que devem ser, os desenhos demonstram que apesar de vários artistas diferentes terem trabalhado com Gaiman, que o autor atuou como um maestro na condução da narrativa gráfica da obra.





VEREDITO


Meu veredito não poderia ser diferente: absolutamente genial! A edição #4, ‘Uma esperança no inferno’, é uma das melhores coisas que eu já li na minha vida. Gaiman sempre figurará no rol dos escritores que provaram para o mundo que as HQs não são apenas para crianças, e Sandman será sempre lida como uma das melhores obras produzidas no âmbito da Literatura do século XX (quiçá de todos os tempos).

Genial e obrigatória!

Nota:
5/5



*Na data deste post, a edição encontra-se esgotada. No entanto a Panini a reimprime de tempos em tempos. Sugiro que você a adquira. Além de ser extremamente bonita e ter sido impressa em papel couché, possui extras com algumas notas e histórias de bastidores (a proposta da série feita em 1987 com esboços de Sam Kieth, de Dave McKean e do próprio Gaiman e algumas informações sobre as primeiras edições), e o roteiro acompanhado pela arte não finalizada da emblemática edição 19, ‘Sonhos de uma noite de verão’.