segunda-feira, 29 de junho de 2015

Resenha: 1984, George Orwell, Companhia das Letras

País de Origem: Inglaterra
Ano da 1ª edição original: 1949
Ano da edição brasileira atual: 2009
Tradução: Heloisa Jahn e Alexandre Hubner
Nº de páginas: 416

Sinopse: Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico. De fato, a ideologia do Partido dominante em Oceania não visa nada de coisa alguma para ninguém, no presente ou no futuro. O'Brien, hierarca do Partido, é quem explica a Winston que "só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro".



"O maior escritor do século XX." - Observer

“Obra-prima terminal de Orwell, 1984 é uma leitura absorvente e indispensável para a compreensão da história moderna." - Timothy Garton Ash, New York Review of Books

"A obra mais sólida e mais impressionante de Orwell." - V. S. Pritchett


MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA


É o ano de 1984, e Winston Smith, um cara bastante solitário, começa um diário. Poderia ser uma cena comum se não fosse o terrível contexto político do mundo em que Smith vive. Ele vive em uma Londres que já não é mais a capital da Inglaterra, e sim da Oceania, um super Estado que corresponde à atual Oceania, às Américas, ao Reino Unido e ao sul da África. O mundo está dividido apenas em três super governos globais, sendo os outros dois a Eurásia e a Lestásia. O governo da Oceania tem como supremo símbolo de poder o Big Brother (Grande Irmão), cujo rosto amedrontador - bastante parecido com o de Stálin – está em todos os lugares em outdoors, nas casas e nos muros da cidade com a frase “o Grande Irmão está de olho em você”. Nenhuma liberdade de pensamento é permitida nessa sociedade distópica e futurista (lembre-se que o livro foi escrito em 1949, 35 anos antes de 1984).


Não quero contar mais nada da história. Aliás, fazer um ‘resumo da história’ nunca foi o meu objetivo ao resenhar livros ou quadrinhos aqui no blog. O objetivo, especialmente neste caso, é mostrar a relevância da obra e o quão prazeroso é lê-la.

Pois, em se tratando de relevância, poucos livros são como ‘1984’. Ele foi escrito em um contexto histórico de desalento, em que a Europa ainda tentava se recuperar totalmente dos terríveis efeitos da Segunda Guerra Mundial. O mundo tinha visto líderes fascistas e comunistas megalomaníacos declararem guerra, invadirem territórios, quebrarem acordos de paz, torturarem e matarem milhões em nome de suas fantasias de poder absoluto. O próprio Orwell lutou na Guerra Civil da Espanha contra o General Franco. Ele poderia ter escrito uma obra que falasse sobre esperança, um mundo novo e melhor. Mas preferiu escrever um alerta à humanidade, de que todos os horrores vistos na primeira metade do Século XX poderiam se repetir, e de formas piores.

Esta obra também pode ser lida como uma aula (às vezes, quase profética) sobre o que é a política moderna e quais são os seus mecanismos de poder. Controle de massa, manipulação da informação (na obra, levada a níveis extremos, inclusive com a constante modificação do passado), controle cultural e linguístico (definição do que as pessoas leem, as músicas que elas escutam, os programas de TV que assistem e o vocabulário que usam), incentivo ao individualismo em detrimento da coletividade (o sentimento de coletividade só é incentivado e bem-vindo, em ‘1984’, quando se trata de atividades em prol do partido), monitoração constante dos cidadãos, dentre outras coisas. Temos visto, neste século XXI, a imbecilização coletiva com a péssima qualidade do ensino oferecido e com o incentivo midiático ao consumo de produtos culturais com conteúdo extremamente raso e de gosto duvidoso. Além disso somos monitorados constantemente através das redes sociais, gadgets e internet. Sim, caro leitor, o “Grande Irmão” está de olho em você. Não, não quero soar conspiracionista (morro de rir de quem acredita em ‘Iluminatis). Mas é óbvio que a sociedade moderna não toma caminhos ao acaso. Nossos líderes provavelmente planejam as rotas, de acordo com seus interesses – muitas vezes escusos.

Foi a segunda vez que li a obra-prima de Orwell. Li não, devorei. A primeira tinha sido há muitos anos, quando eu não tinha muita maturidade para entender as camadas narrativas que o genial autor inglês tece. Mas, mesmo nesta segunda leitura, tenho certeza que não absorvi tudo. Não porque é um livro difícil de ser lido, longe disso! ‘1984’ não envelheceu um dia sequer, inclusive em termos de construção narrativa. No entanto, assim como disse o grande Ítalo Calvino sobre a diferença entre um livro comum e um clássico, ‘1984’, "um clássico é um livro que nunca esgota tudo o que tem a dizer a seus leitores".

A obra foi adaptada para o cinema e teatro.

"O livro foi adaptado para o cinema duas vezes. A primeira adaptação foi realizada por Michael Anderson em 1956 e trazia Edmond O'Brien no papel principal, Jan Sterling como Júlia, Donald Pleasence como Parsons e Michael Redgrave como O'Brien. A segunda adaptação foi feita por Michael Radford no próprio ano de 1984, trazendo John Hurt no papel principal, Suzanna Hamilton como Júlia, e Richard Burton, em seu último papel no cinema, como O'Brien. Da trilha-sonora desta versão, intitulada 1984 (For the Love of Big Brother), e feita pelo grupo de música eletrônica Eurythmics, foi lançado o sucesso "Sexcrime (Nineteen Eighty-Four)".
Dois anos antes da primeira adaptação para o cinema, a BBC realizou uma adaptação televisiva do romance. Esta adaptação provou ser altamente controversa, tendo sido questionada no Parlamento e recebido várias reclamações de telespectadores devido a seu conteúdo supostamente subversivo e de natureza perversa. Numa pesquisa conduzida pelo British Film Institute (Instituto Britânico de Cinema) para determinar os cem melhores programas de televisão da Grã-Bretanha do século XX, esta adaptação de 1984 apareceu na septuagésima terceira posição. 
O romance também foi adaptado para o formato de ópera, tendo estreado na Royal Opera House em 3 de maio de 2005. Os veículos da imprensa britânica, como o Daily Telegraph, o Financial Times e o The Guardian, teceram críticas altamente negativas à obra, enquanto a revista estadunidense Newsweek e o jornal espanhol La Vanguardia a elogiaram".  
Fonte

Cena da adaptação de 1956, mostrando Winston e Julia

Cena da adaptação de 1984, mostrando Winston e uma teletela


No dia 22 de fevereiro de 1984, no intervalo do Super Bowl, a Apple veiculou um comercial sensacional para lançar o Macintosh, utilizando elementos do livro. Esse comercial é cultuado até hoje. Veja:


VEREDITO


A obra ‘1984’ é a melhor, mais perturbadora, coesa, bem escrita, visceral e transformadora distopia que já li em toda a minha vida. É o livro que encabeça minha lista de melhores leituras de todos os tempos, e vai ser muito difícil fazê-lo perder esse posto.

Genial, indispensável, irretocável e obrigatório!

Nota:
5/5